Uma das histórias mais recontadas dos quadrinhos é a origem do Superman. Entre as inúmeras versões já escritas algumas se destacaram nas mais de sete décadas de existência do personagem, como Superman – O Homem de Aço, de John Byrne; Superman – O Legado das Estrelas, de Mark Waid e Leinil Francis Yu; e Superman – Origem Secreta, de Geoff Johns e Gary Frank, todas leituras que recomendo muito por apresentarem elementos que enriqueceram a mitologia do personagem.
Grant Morrison sabiamente preservou a essência do mito de origem do Superman, como a destruição de Krypton e a fuga de seu último filho para a Terra, e sua adoção por um casal humilde e bondoso. Os acréscimos feitos pelo autor foram mais com o intuito de enriquecer os significados simbólicos já presentes na maioria das versões da origem do herói, e dar mais peso e importância à sua herança kryptoniana.
KRYPTON
Os kryptonianos eram uma raça de seres que alcançaram o equilíbrio entre o desenvolvimento físico e intelectual. As mulheres se pareciam com super-modelos e os homens tinham porte atlético e músculos desenvolvidos. Todos vestiam roupas com design sofisticado e funcional. Um exemplo são as tiaras que usavam, que eram tanto um adereço como um aparelho de comunicação portelebandas, uma espécie de telepatia artificialmente gerada, uma extrapolação de nossos celulares. Neste mundo convertido num paraíso científico até mesmo os objetos de decoração tinham funcionalidade, como os robôs mordomos que também funcionam como luminárias ornamentadas na festa que Lara frequenta nas primeiras páginas de Action Comics #3.
A arquitetura das cidades de Krypton, e os designs dos aparatos tecnológicos kryptonianos, foram imaginados porGrant Morrison e o desenhista Gene Ha, que ficou responsável por recriar visualmente o planeta natal do Superman misturando todas as principais versões já concebidas para ele. Assim, há influências do deco-futurismo da década de 30, das ficções científicas da década de 50, das construções de cristais dos filmes de Richard Donner e Bryan Singer, e das roupas tecnológicas criadas por John Byrne na reformulação que fez da mitologia do Superman nos anos 80.
Outro ponto a ser observado é que os kryptonianos usavam sua tecnologia para controlar as forças da natureza. Voltando à festa em que Lara é vista em Action Comics #3, encontramos uma plataforma flutuante com vários níveis, cada um com uma gravidade própria (tudo isto é explicado nas páginas extras da edição #2). É um leve toque de ironia da parte de Morrison, pois nem com todo este aparato tecnológico os kryptonianos foram capazes de impedir a tragédia que se abateu sobre seu planeta. Na verdade nem tentaram, pois zombavam das previsões alarmantes de Zor-El.
Mais curiosidades sobre Krypton:
- Lex Luthor descobriu o nome do planeta de origem do Superman antes dele. Ele teve acesso a esta informação através da entidade alienígena conhecida como Colecionador de Mundos, que entrou em contato com ele antes de invadir a Terra em Action Comics #2.
- Na história complementar de Action Comics #14, escrita por Sholly Fisch, o Superman vê pela primeira vez Krypton sendo destruído, cruzando dados recolhidos por milhares de telescópios espaciais do mundo todo. Na ocasião também é revelada a idade do herói, calculada a partir do tempo que a luz da explosão de Krypton levou para chegar à Terra: 27 anos.
A Destruição de Krypton
Semelhante a versões anteriores, a destruição de Krypton ocorreu devido à crescente pressão de seu núcleo, que se manifestou sem alarde sob a forma de terremotos, e culminou em seu colapso total.Jor-El continua sendo o cientista que previu com precisão as consequências catastróficas destes abalos sísmicos, mas teve suas teorias desacreditadas.
A ruína de Krypton, portanto, é novamente atribuída ao enorme orgulho dos kryptonianos. Crentes de que viviam num paraíso em que a tecnologia os ampararia e impediria automaticamente tais catástrofes. Mesmo suas mentes mais brilhantes foram incapazes de levar em consideração que seu planeta se voltaria contra eles de tal forma.
Para piorar ainda mais o dia trágico, pouco antes de ser totalmente destruído, Krypton foi “assaltado” peloColecionador de Mundos. Artefatos representativos de sua cultura foram recolhidos, e Kandor, principal centro científico do planeta, foi encolhido para fazer parte do museu de cidades e artefatos alienígenas engarrafados do Colecionador.
Esta versão da destruição de Krypton é muito parecida com a vista em Superman: The Animated Series (1996-2000). A diferença é que na série animada Brainiac não recolhe artefatos, mas faz download de todas as informações do planeta (mais detalhes sobre a relação entre o Colecionador de Mundos e Brainiac um pouco mais abaixo, e também na parte 4 desta série de matérias).
Kandor
Diferente das versões anteriores, após miniaturizada e roubada pelo Colecionador de Mundos, Kandor e seus habitantes são mantidos no que o alienígena chama de “condição nula”, um êxtase forçado, uma morte em vida. Não deixa de ser irônico que os únicos kryptonianos fisicamente intactos estão impedidos de continuarem suas vidas, enquanto criminosos kryptonianos “vivem” como fantasmas no Anti-Universo que é a Zona Fantasma.
Depois de transformar a nave do Colecionador em sua primeira Fortaleza da Solidão, o Superman conseguiu retirar artefatos kryptonianos da garrafa de Kandor com a ajuda da tecnologia de miniaturização de matéria desenvolvida pelo Professor Palmer, alter-ego do super-herói Eléctron. Entre os artefatos estão trajes típicos, servos-robôs e taças. Aparentemente é arriscado demais qualquer tentativa de retirar seres vivos da condição nula.
Zona Fantasma
A primeira pista da existência da Zona Fantasma no universo pós-reboot foi dada de uma maneira muito curiosa: um mendigo enxerga o fantasma de um cão branco vigiando Clark Kent em Action Comics #3. Só descobrimos que animal é este e como ele foi parar ali na edição 5.
A dimensão conhecida como Zona Fantasma é definida porJor-El como um Anti-Universo. Descoberta por ele, a Zona é um inquietante espaço vazio que transforma todos que são transportados para ela numa presença imaterial. Vez ou outra um prisioneiro da Zona consegue manifestar-se como um fantasma no plano material, mas sem receber dele qualquer tipo de impressão sensorial. Assim, mesmo que alguém mais sensitivo possa enxergá-lo, o “fantasma” é incapaz de ouvir, enxergar e tocar qualquer tipo de matéria. Graças a isto, a Zona passou a ser usada como uma prisão para criminosos kryptonianos.